Taxa de rejeição em mamografia: o indicador que reorganiza a equipe
Dados, padrões e o que muda no serviço quando a equipe vê o número da própria taxa de rejeição todo mês.
Dados, padrões e o que muda no serviço quando a equipe vê o número da própria taxa de rejeição todo mês.

A taxa de rejeição em mamografia é, ao mesmo tempo, um dos indicadores mais simples e mais reveladores que um serviço de imagem pode acompanhar. Apresentei essa análise no 54º Congresso Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem em 2025, em coautoria com J.V. Real, e o que mais surpreendeu não foi o número em si — foi o que aconteceu com a equipe depois que ela passou a vê-lo todo mês.
A taxa de rejeição mede o percentual de exames de mamografia refeitos por inadequação técnica. Em um serviço bem calibrado, ela tende a ficar abaixo de 5%. Acima disso, tem informação importante escondida: posicionamento inadequado, problema de equipamento, fadiga da equipe, treinamento incompleto, ou — mais comum do que se admite — falta de feedback estruturado.
O que o nosso trabalho mostrou é que o impacto do indicador não é técnico, é institucional. Quando a equipe sabe que a taxa de rejeição está sendo medida, registrada e discutida em reunião de qualidade, o comportamento muda antes mesmo do treinamento formal acontecer.
Isso é cultura de segurança operando — e é mais barato que qualquer programa de qualificação.
Algumas regras práticas que aprendemos:
Não é o número absoluto que conta — é a tendência ao longo dos meses. Um serviço que sai de 8% para 4% em três meses está fazendo algo certo, mesmo que ainda esteja longe do ideal. Um serviço estável em 3% por dois anos pode estar mascarando exames borderline aprovados sem critério.
Indicador é instrumento de melhoria, não de julgamento. Quando ele vira julgamento, o serviço aprende a maquiar o número e perde o instrumento.
A taxa de rejeição é boa porque é simples, é honesta e é audível pela equipe. Em um serviço que decide usá-la como diálogo (não como bastão), ela reorganiza a forma como os tecnólogos pensam o próprio trabalho — e isso vale mais do que qualquer protocolo novo.
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